Não jogo mais por diversão.

Pra quem não me conhece, eu sou o Camargo, estudo jogos e sou entusiasta nessa área.

A um tempo atrás eu trabalhava na área administrativa, área de minha formação, porém isso não me alegrava, queria trabalhar com jogos, após um tempo sai da empresa e usei minha rescisão para fazer uma pós graduação em jogos e participar de projetos, e assim foi. Fiquei quase um ano focado na pós graduação, criando conteúdo e participando de Game Jam e jogando tanto jogos que seriam temas de podcasts e vídeos, quanto jogos que eu jogava só para me divertir, estava tudo ótimo, até que o dinheiro acabou. Boletos não se pagam sozinhos, consegui um trabalho como instrutor de computação gráfica numa escola profissionalizante, pensei que seria legal pois estaria “trabalhando na área de jogos”, doce ilusão.

Eu deveria saber que não seria experiência na área por uma série de fatores que eu mesmo observava como aluno e como funcionário. Como aluno já havia percebido que quem ensina jogos no Brasil normalmente não está desenvolvendo ou participando do mercado, pelo menos não na minha pós e em cursos como o que trabalho, onde o foco é mais na ferramenta, já como funcionário, eu deveria valorizar mais meu trabalho, mas aceitei ganhar menos e trabalhar a uma considerável distância da minha cidade, o que gasta boa parte do meu tempo útil em transporte e também ocasiona mudanças de rotina e consumo. Fora esses, ainda há alguns fatores desmotivadores que só pude perceber ao trabalhar, como a falta de estrutura, investimento e atualização e a desmotivação de muitos alunos que raras vezes estavam no curso por vontade própria e quando estavam, se decepcionavam pois tinham a ilusão de que um curso de jogos seria jogar e fazer jogos rapidamente, ilusão que já vinha com eles ou era criada a partir de aulas de demonstração que são feitas para serem mais atrativas e envolventes que as aulas do curso em si.

Agora trabalhando, passo cerca de 9 a 13 horas fora de casa por dia de segunda a sábado, contando aí a carga horária do trabalho e o transporte, mas ainda tenho que fazer o TCC da pós graduação, ainda participo do podcast e ainda tento desenvolver algo para jogos… é aí que tudo se complica. Como faço baldeações e nem sempre posso ir sentado, ler no trem ou ônibus não é uma opção, acabo utilizando esse tempo para ouvir podcasts sobre jogos ou podcasts em inglês para sentir que estou fazendo algo útil com esse tempo. Para estudar e escrever meu TCC utilizo um pouco do meu tempo de programação de aula, mas é pouco. Chego exausto em casa, sem ânimo ou concentração para estudar, mesmo tendo alguns cursos online a minha espera. Mesmo cansado demais para absorver conteúdo, ainda tento jogar algo ou me preparar para gravar os casts, mas não me divirto com isso. Estou tão cansado que jogar não me dá prazer, tudo que eu quero é absorver conteúdo de forma inerte, sem precisar pensar ou agir, fora isso os jogos para os programas são escolhidos pelo grupo, nem sempre é um jogo que eu goste ou que eu aproveite bastante, fica a pressão de que deve-se jogar para poder contribuir para o assunto, você se divertindo ou não. Nessa priorização de jogos para pauta, os jogos que costumavam me divertir começam a ficar de lado e os jogos que estou jogando não conseguem me manter em estado de flow, pois tenho fadiga e outras preocupações que não me permitem aproveitar o jogo.

Se você está lendo até aqui, talvez tenha se perguntado “por que não não usa o fim de semana para estudar e se divertir?”, bom, lá em cima eu disse que trabalho de segunda a sábado, sendo assim só me sobra o domingo, um dia onde posso usar o tempo como quiser, certo? Quase isso. Os domingos deveriam ser o dia em que eu me concentraria no TCC, assim poderia realizar um bom trabalho, mas depois de 6 dias exaustivos, se eu fico no domingo em casa, eu descanso, muitas vezes apenas ficando parado ouvindo música, mas a maioria dos domingos passo com meu parceiro, onde ficamos jogando e fazendo projetos, seja participando de uma Game Jam ou buscando fazer algum jogo novo, esses momentos de domingo me fazem bem, seja por eu estar com quem gosto, poder me divertir, ganhar experiência ou por simplesmente descansar depois de uma longa semana, mas mesmo assim sempre bate aquela sensação de que eu não utilizei corretamente o único dia livre que eu tinha, sempre me culpo por não focar no TCC ou tentar arranjar uma maneira de ganhar dinheiro, não deveria, mas as preocupações e cobranças se instalam na mente e vão se acumulando, com o tempo a sensação de não estar sendo útil ou de não render “o que deveria” acabam criando desânimo e desmotivação. Somos educados num sistema de massa, alimentados por promessas de que basta se esforçar para ter o que quer e jogados numa realidade onde boletos não se pagam com sonhos.

Assim como meus alunos foram inocentes ao ver uma aula onde você cria um jogo de labirinto na Construct e pensar que o curso todo seria assim, eu fui inocente ao ignorar o que sabia e achar que dar aula me ajudaria na área de jogos. Aprendi muita coisa ensinando, tive que voltar a estudar algumas ferramentas para poder passar corretamente para meus alunos, mas esse aprendizado não foi o suficiente para me motivar, a rotina criada é desgastante, tudo se torna urgente e nada é feito. A cobrança segue para seu inconsciente, onde momentos de lazer que são necessários para o ser humano se tornam motivo de cobrança por não “estar rendendo”, com tantas cobranças e tarefas, ao sentar para jogar, não me deixo mais levar, não e divirto, não me vejo no jogo, jogo apenas porque é mais uma tarefa que devo cumprir.

Isso deveria ser um texto sobre como o cansaço e o estado mental influenciam em não permitir que o jogador entre no estado de flow, mas acabou se tornando um desabafo.

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Formado em Administração de Empresas, atualmente cursando pós-graduação em jogos digitais, geek, casual gamer, leitor de livros e graphic novels, entusiasta de novas tecnologias de interação e cultivador de projetos inacabados

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Alado (Camargo)

Formado em Administração de Empresas, atualmente cursando pós-graduação em jogos digitais, geek, casual gamer, leitor de livros e graphic novels, entusiasta de novas tecnologias de interação e cultivador de projetos inacabados

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